quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Viver Mais ou Menos (ou desabafos de um 7)

A gente pode
Morar numa casa mais ou menos
Numa rua mais ou menos
E até ter um governo mais ou menos

A gente pode
Dormir numa cama mais ou menos
Comer um feijão mais ou menos
Ter um transporte mais ou menos
E até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro

A gente pode
Olhar em volta e sentir que tudo está
Mais ou menos
Tudo bem

O que a gente não pode
Mesmo, nunca, de jeito nenhum,

É amar mais ou menos,
É sonhar mais ou menos,
É ser amigo mais ou menos,
É namorar mais ou menos,
É ter fé mais ou menos,
E acreditar mais ou menos.

Senão a gente corre o risco de se tornar
 Uma pessoa mais ou menos


(poema de Chico Xavier)

Hoje parei um pouco, e assim posso escrever um pouco. E voltar um pouco a esta sensação boa dos tempos em que lia poesia com calma e saboreava as emoções que as palavras provocam e ficava a contemplá-las para ir mais fundo... E voltar aos tempos de escola em que nos obrigavam a escrever isto por palavras e que eu, no fundo, adorava. Adorava racionalizar tudo o que conseguia esmiúçar num poema, mesmo que às vezes não acertasse no que os professores também achavam dele (ainda gostava de saber como podia haver critérios para corrigir interpretações de poemas, acaso os poetas os escreverem eles próprios? A magia da poesia não é mesmo essa, de poder suscitar infinitas interpretações?).
Este poema fez-me hoje parar, graças ao eneagrama, numa estória. De tanto me dizer do que de mais oculto e profundo há em mim, até me dói a alma, e nem sei por onde começar...
Primeiro de tudo fala de equilíbrio, da procura incessante do mais ou menos que me ocupa os dias. Indecisa eternamente entre o que vou abraçar e do que vou abdicar para poder abraçar e saborear melhor o que decido fazer. Eternamente amargurada com aquilo de que abdico ou que não abdico mas devia abdicar e entretendo-me com o que abraço para me esquecer dessa amargura, acabando por não saborear o que abraço. Mas fingindo bem que saboreio. E sou feliz...
Também me confronta com a importância do dia-a-dia e como o vou vivendo mais ou menos, na esperança de haver mais tarde algo mais-mais-do-que-menos. E nunca me apercebo de que posso fazer de cada dia um dia Mais, se o souber saborear em vez de me poupar para o Dia-Mais que virá... Será que sei sequer saborear? Mas sou feliz...
Fala também de emoções e sentimentos e como estes SIM devem ser ou Mais ou Menos, levados ao máximo e sentidos ao máximo. Amar, sonhar, ser amigo, namorar, ter fé e acreditar... na minha racionalidade penso tantas vezes se os sei realmente sentir, ou melhor, se lhes sei dar espaço e importância. Não falo só de tempo na minha agenda, esse eu sei bem arranjar. Falo de espaço mesmo nas minhas células que são controladas ditatorialmente pelos meus neurónios racionais. Como é que se desligam esses para poder saborear tudo isto Mais? Além disso, sei bem que junto com um Mais vem também um Menos implícito neste campo (não é só no campo de ter de abdicar de coisas para poder ter outras). Quando se sente algo BOM (amor, sonhos perfeitos, amizade verdadeira e profunda, namoro gostoso, fé em algo transcendentemente maravilhoso) é realmente fantástico, mas traz sempre implícita a possibilidade de algo verdadeiramente MAU/sofrimento (não ser mais amado, não ser amado de volta, não conseguir atingir um sonho, esforço que não é reconhecido, a traição de um amigo, amizade que afinal não é retribuída, um grande amigo/amor que morre, um namoro que acaba ou duvida, dúvidas do sentido da vida perante injustiças e sofrimento). E será que vale a pena? Mesmo que racionalmente consiga achar que sim, que isso é que dá gosto à vida, às vezes apetece ser mais como o Ricardo Reis do Fernando Pessoa e deixar a vida passar calmamente por nós sem grandes sobressaltos. Logo, sem grandes sofrimentos. E sendo, devagarinho.... feliz.
E o pior disto tudo é que quem olha para mim vê alguém que vive a vida intensamente, tudo Mais... gosto de tudo o que faço, faço tudo o que gosto (organizo-me bem) e estou sempre a sorrir Mais, feliz. E não me interpretem mal. Eu sorrio genuinamente. E sinto-me feliz.
E não sei ser de outra forma. Pois... talvez por isso... é preciso saber ser não-sempre-Feliz, para ser Feliz, se calhar...
A verdade é que o verdadeiro dilema de tudo isto é que nunca quis ser uma pessoa mais ou menos, quis sempre ser uma pessoa Mais. No dia-a-dia tento fazer essa diferença e deixar essa marca nas pessoas. E isso de ser uma pessoa Mais ou Menos assusta-me, quero ser Mais. Mas na verdade luto todos os dias para o saber ser, mais equilibrada entre o que faço e o que devo fazer, mais equilibrada entre o que penso e o que me deixo sentir, mais equilibrada entre o que sofro e o que sou feliz, mais Mais ou Menos. Mas mais-Mais-do-que-menos... Se bem que não há Mais sem Menos. E para ser MAIS há que ser Menos às vezes e Mais ou Menos muitas vezes...
Se calhar, só queria mesmo era ser Feliz...
(e fazer os outros Felizes...)

:)



sábado, 8 de setembro de 2012

Ser Mãe: a grande aventura

Parece um clichê dizer que é uma aventura ser mãe, mas os últimos tempos não podem ter outra descrição. E ainda vai tudo no início... assusta-me um pouco pensar que esta fofura de 7 meses vai precisar de autoridade e caras-feias para se tornar uma pessoa educada... Mas para já é mais uma aventura de mimo :)
No meio de tanto trabalho, com a sorte de ter quem fique com ele quando o trabalho e outras obrigações apertam, há dias em que quase só se vê o pimpolho a dormir (e, confesso que há quem o acorde, oops, sem querer, para brincar um bocadinho e matar saudades). Um dia destes possivelmente até trouxe um bicho do trabalho e tive a maravilhosa aventura na 1ª pessoa do primeiro D0 de febre assustador para qualquer mãe perante supositórios que ele não gosta e xaropes que pode vomitar acrescidos das ideias assustadoras que passam na mente de uma médica de todas as complicações que daí podem advir, e ter de ir trabalhar logo nesse dia que era Domingo longe dos picos incessantes de febre infantil. Mas a aventura de ser mãe é isto, é saber respirar fundo e confiar. Confiar na natureza, na família, no destino e em Quem de nós cuida e não desleixa, onde quer que esteja. E tudo voltou ao normal ao D2 como seria de esperar e a barriga continua gordinha. E a aventura vai continuando, com um primeiro dente agora à mostra, para não se poder dizer que veio sem o pico febril antes para não contrariar o povo (a quem muito afincada e cientificamente explico que não tem nada a ver a febre com os dentes). A aventura de ser mãe tem muito isto de compreender os outros. Compreendemos primeiro a nossa mãe (e nem acreditamos que já passou por isto connosco) e, no meu caso, traz o extra de compreender muitas mães que vêm aflitas por cada borbulha dos seus filhos a correr ao Centro de Saúde ou urgências...
E as cenas dos próximos capítulos estarão para vir. Vão ficando marcados a alegria e orgulho de ver um piolhinho crescer primeiro com o nosso leite, depois com a comida que adora (não sei a quem sairá mas nunca esperei tamanha sorte) e miraculosamente aparecer, de repente, com gracinhas e aptidões novas (como a mania de querer andar em vez de gatinhar e sair um "olá" sem querer de vez em quando). Aquelas coisas que parecem tolas mas que para uma mãe são tudo.
E este sorriso é mesmo tudo...
08.09.12_vôo D



sábado, 1 de setembro de 2012

Mulher: dia de comer fora :)

Rolos orientais -> hmmmmmmm
Pelo menos segundo rumores no facebook da Rádio Comercial, ontem era dia de comer fora. Mas para mim foi mais anteontem. Para provar que se pode ter muito que fazer (assim de repente diz a calculadora, 60 horas de trabalho eu + 100 horas o outro médico cá de casa esta semana acrescidos das horas extraordinárias de cuidadores do pirralho de 7 meses e demais actividades básicas para a vida) e ainda assim ter momentos românticos de "vamos jantar fora" assim de repente. Mas tinha de ser algo saudável... que tal Ramen no Japonês? Boa, sair da urgência a correr check , miúdo a dormir em casa dos avós e tias check e lá estamos batidos nas mesas dos bancos com almofadas. Ah e tal, afinal não há Ramen, estamos a reconfigurar esses pratos (mas criem outro Ramen depressa, aquele era mesmo bom, sabia a lua-de-mel no Japão..:)). Deu para provar pratos novos: Rolos orientais como entrada foram a melhor descoberta. Só pela descrição dão água na boca: rolinhos de folha de arroz com rúcola, manga, camarão e molho de frutas. E depois um prato de arroz e outro de massas... muito bom. Que Japonês não é só Sushi (e tem coisas beeeem melhores).
Deu para sair da rotina e sentir que vale a pena ter rotina, porque sabe bem sair dela:)
E ainda deu para matar saudades do pimpolho que decidiu mudar rotinas para acordar às 23h para jantar esta semana e ainda para perceber que está grande demais para dormir nas camas de grades com prateleira em cima. E à meia noite a cirurgia foi de re-montar a cama Ikea para ver se os malabarismos do piolho não dão para mergulhar de cabeça como estava já a tentar em segredo fazer uns minutos antes.
E a nova atração do momento (este Português novo fica mesmo mal) passa a ser vê-lo a subir pelas grades acima.
Enfim, um dia em cheio. Que soube a quase-fim-de-semana durante a semana.
Soube mesmo bem. Em todos os sentidos. Todos os 5 sentidos. Ou 6:)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Médica, de Mais e de Menos

Estes dias tenho sido mais médica, a avaliar pelas 15h de trabalho ontem e 13h hoje (e mais o que me espera nos próximos dias)...
Este papel o que tem de mais difícil são as doses de paciência que têm de se tomar ao pequeno almoço. Paciência para estar sempre com um sorriso quando se chama alguém que vem cheio de medo e expectativas e que preparou muito bem o discurso, a listinha e até a toilette e que quer aproveitar ao máximo os minutos que parecem sempre poucos comparados com os que parecem sempre muitos em que esteve à espera. E paciência para ouvir cada pessoa como se fosse a única, a primeira e a última, para que sinta que a compreendemos profundamente e que fazemos tudo o que podemos por ela. Porque ser médico, acima de tudo o que se possa ou não saber, é fazer tudo o que se pode por alguém e, para mim, isso distingue os Bons Médicos dos Maus Médicos. O difícil, para mim, é gerir isso no tempo que temos para cada um dos nossos doentes e, mais ainda, no tempo que temos para nós e para a nossa vida.
Vinha hoje no caminho a pensar nisto mesmo: dar prioridade à minha saúde mental ou à dos meus doentes? (e conclui que acho mais útil a minha estar saudável, para poder cuidar da deles)
E chegou a hora de voltar à papelada, que me consome mais paciência que os mais derretedores de paciência "acho-que-é-melhor-ir-embora-que-está-muita-gente-lá-fora-mas-já-agora-podia-medir-me-a-tensão-outra-vez?" ou "pela-milésima-vez-venho-queixar-me-deste-formigueiro-que-me-vai-por-aqui-depois-aqui-e-me-precorre-o-corpo-todo-não-há-nenhum-exame-melhor-para-isto?".
As malditas análises para passar para o computador esperam-me (anda uma mãe a criar um filho para isto!).

Oh papelada, o que uma médica sofre...

(que quando chegar a casa não me posso esquecer de investigar a história de um músico que anda sem forças na mão e ver o que posso fazer por ele)

domingo, 26 de agosto de 2012

Começar um blog

Será que vou ter coragem de começar um blog?
Sempre achei que preferia passar o tempo a viver do que a escrever a vida num blog, mas outro dia lembrei-me que posso sempre aproveitar os intervalos da vida no meu telemóvel e escrever...
Porquê? Porque sempre gostei de escrever. 
Seria talvez mais interessante se fosse útil para alguém mas acho que também posso escrever um blog só porque sim, porque gosto. 
Porque pode ser o meu lado de sublimação artística, um escape à racionalidade do dia-a-dia, porque pode ser o meu lado de identificação orgulhosa com os meus múltiplos papéis, porque pode ser bom material para mais tarde recordar bons pensamentos, porque pode ser uma ligação ao mundo... acho que vou tentar.
(Lá está o meu lado racional e científico a escrever os objectivos antes de começar...)
Ter a coragem de tentar já é uma boa experiência.
Já vale a pena :)